Coluna Pela Noite a Dentro por Márcia Lima

 Sobre a Colunista: Jornalista e contista. Formada pela Ufpa em 2001 e na tentativa de lançar seu primeiro livro neste ano.fotomarcia

 Sobre a Coluna: Histórias e estórias sobre romances, amor, sexo entre outras coisas que podem ter acontecido ou não pelo bares e noite de Belém.

Twitter:  @lentescorderosa

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A Forneria

Coluna Pela Noite a Dentro

Coluna Pela Noite a Dentro por Márcia Lima
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Coluna Pela Noite a Dentro - Só mais uma cliente

Só mais uma cliente

Observou quando ela chegou meio tropeçando, indiscutivelmente bêbada. Deveria ser a quarta ou quinta semana em que aparecia na casa, chegava com os amigos. Eles se arrumavam, beijavam na boca. Ela dançava, flertava, curtia com o álcool. Achou um desperdício.

- e aí vocês tem long neck? No outro bar não tem mais... – a língua se atrapalhando entre os dentes.

- não, baby, aqui só temos bebidas quentes. – ele não pode deixar de sorrir. Ela era linda, dessas belezas que explodem na sua cara, que agridem. Se a encontrasse na rua, jamais sequer teria coragem de olhá-la nos olhos. Mas ela estava com o maior sorriso que ele jamais vira num rosto bêbado. Sentada feio homem no banco do bar dele, com os cotovelos no balcão do bar dele, e os seios quase pulando fora do decote na frente dele. Era ele quem deveria servir ali. Mas estava sendo muito bem servido, de uma visão maravilhosa.

- o que tem de mais quente aí? – ela falava e sorria, como se sugerisse que ele poderia ser todo o calor que procurava. Não, ele não cairia na armadilha mais velha e mais canalha de todas as bêbadas que sentavam naqueles bancos. Poderia estar de sunga, poderia estar ali pronto para ser apreciado pelos freqüentadores do bar, mas era só isso, era apenas o barman, não o prostituto que se vendia por um olhar mais quente. Pensava isso limpando os copos atrás do balcão, mas o corpo já respondia a ela de outra maneira, arrepiado, um arrepio que não era de pelos.

- de mais forte, eu tenho tequila. Quer? – queria saber até onde ia a coragem dela, embora, soubesse que bêbados tem sempre mais coragem do que os sóbrios. Aquilo ele poderia comprovar nos seus anos de experiência atrás do balcão.

- Nunca provei – saliva se soltando pelos lábios, umedecendo ainda mais a boca provocante.

O outro atendente se aproximou para ver no que ia dar. Não raro eles testavam a resistência dos bêbados com doses de tequilas. Invariavelmente riam bastante. O que de certa forma não o agradou. Ele não queria testemunhas nem para o que estava sentindo nem para o que queria fazer. Na verdade, não era certo que ninguém sequer soubesse o que tinha vontade de fazer embora o corpo dele gritasse seus desejos a qualquer olho mais atento.

Ela o olhou no fundo dos olhos, sabia que estava ferrado, soube no momento em que contou as semanas que a via bêbada. – o que eu ganho se beber a tequila? – o que ele poderia oferecer? Estava em seu horário de trabalho, tomando conta do balcão o que poderia oferecer?

- do jeito que você está um pouco mais de álcool e nem vai conseguir se manter em pé – ele sorria pro colega ao lado – o que você acha?

- Acho que ela ta dizendo que encara numa boa uma dose de tequila, não encara? – merda tinha esquecido a péssima mania do amigo de colocar palha na brasa incandescente. Mas ele não queria, não queria fazer parte daquilo, fazer parte da turma que a faria de palhaça, que a veria desmaiar ou cambalear mais ainda. Ele queria ser olhado daquele jeito, mas por olhos sóbrios, não enevoados, queria mais.

Mas no que ele estava pensando? Que loucura era essa de achar que poderia ter mais dela, do que olhares lascivos bêbados num bar. Droga. – é se você aguentar a tequila. Melhor, melhor mesmo provoca-la o suficiente para vê-la ir embora cuspir a bebida que ele sabia não fazer parte do cardápio dela.

- ok, vê a dose aí, mas me ensina como bebe essa merda, é muito ruim? – o que ele estava fazendo? Onde estava se metendo? Respirou fundo, já que tinha chegado perto demais do fogo, era melhor incendiar de vez.

- já decidiu qual vai ser seu prêmio? - era isso que ele queria, queria tocar, cheirar, beijar ainda que estivesse bêbada, ainda que estivesse prestes a esquecer tudo que ia acontecer ali, a vontade de provar dela, era maior que tudo.

Algo brilhou no fundo dos olhos dela, uma espécie de lucidez, um fogo maior que a bebedeira, ofuscou sua visão e desceu pelo corpo seminu. Ele exultou, ela não estava assim tão sem noção. Um frio, um misto de outras manifestações químico-corporais se alojou nas virilhas. Estava definitivamente encrencado.

- Aqui: o sal, o limão, a dose. Lambe o sal, bebe, chupa o limão, simples assim. – Lambe, bebe, chupa... por que ele tinha escolhido essas palavras? Por que ele não tinha usado outras, mas agora queria, precisava que ela bebesse. A urgência que tinha tomado conta dos seus desejos não permitia sequer um desvio de atenção, não saberia nem como fazer para atender qualquer que fosse o desejo no olhar dela. Mas precisava de uma prova de que ela realmente faria tudo para ter o que pedia.

E ela provou, lambeu o sal como se fosse ele, virou o copo, e chupou o limão com uma careta deliciosa... mas ele percebeu que algo tinha desviado. Quando ela baixou a cabeça pra cuspir ... o ato de baixar a cabeça, quase a derrubou, pulou o balcão, a segurou nos braços

- aguenta chegar no banheiro, aguenta -  ele sussurrava no ouvido dela,  ele sabia, ela já tinha ultrapassado da cota, merda, ele sabia, ele sabia... quase derrubou a porta do banheiro, quase gritou com quem estava lá dentro para sair, bateu a porta, a sentou na pia, o chão estava imundo, não poderia ... foi quando sentiu as mãos e os suspiros que ela soltava a cada roçar de toque nos músculos do peito alcançando o pescoço

- eu bebi, ela disse meio molemente, agora quero minha recompensa, ela sorriu, o olhar e o ar no rosto ainda engraçadamente bêbado, mas ainda deliciosamente sacana.

E foi a vez dele de beber a pele, sentir o sal do suor com a língua, no decote. De segurar as nádegas dela sem nenhuma vergonha, quase desfaleceu quando ela o trouxe para ainda mais perto com as pernas. Uma voracidade nascida das semanas em que admirava aquelas curvas, sem poder tocar. Um desejo desesperado fez o homem nele procurar o calor do corpo dela, odiou o fato de estar ali todo exposto e ela ainda toda escondida sob a roupa, ainda que a calça fosse apertada que desse para ver, ele agora queria tocar, tocar a pele, tocar o corpo, roçava-se nela como se isso por si só, pudesse furar o tecido e fazer os corpos se encontrarem de verdade. E ela o fazia se sentir ainda mais desejado o corpo se contorcendo para oferecer os seios, as pernas apertando a cintura como a pedir, como a querer.

Não teve escrúpulos de procurar o fecho da calça dela, enfiou a mão e sentiu o suspiro, enquanto ela se espremia ainda mais contra ele, e aí foi a vez dele suspirar fundo ao ouvi-la pedir: - eu bebi aquela porcaria eu quero você todo. Mas ela não esperou resposta ao buscar o membro ereto, sentir o calor, o tamanho e acaricia-lo com força. Ele agora estava perdido nas sensações embriagantes, só tomou conhecimento do preservativo que ela tinha na outra mão, quando ela bateu com força o envelope no seu peito. Sim, ela estava preparada.

Afastou-se, mas ela o agarrou, e fez questão de vesti-lo ela mesma. Enquanto ele já se perguntava o que faria com a calça. Saiu beijando o pescoço e descendo a calça, a maldita calça, que mostrava, mas que não o deixa acessar o local onde ele queria estar, a solução ela mesma apresentou. Desceu da pia e virou de costas para ele, rebolando até ele deixar a calça no meio das coxas, apoiou-se na pia. A visão do corpo dela meio inclinado oferecendo-se a ele o deixou maluco, sem nem pensar meteu-se inteiro nela, segurou-a pelo quadril para ir mais fundo, quase desequilibrou quando ela tomou uma das mãos e a colocou de volta no ponto em que ela desejava ser tocada.

Era o inferno, o local, mais quente, mais suculento, mais agoniante. Era um prazer visual, tátil, orgásmico, que ele vivia enquanto saia e entrava no corpo dela, e sentia ela mover-se no membro dele, adorando o gingado. Não resistiu mais, quando percebeu que ela se largara no peito dele, e ouviu as batidas na porta do banheiro, também apressou as investidas, embora, se pudesse... mas não podia, soltou o gozo intenso.

As batidas na porta continuavam e agora mais fortes, limpou-se, arrumou-se, ela também, já se punha em ordem. Sorriu, beijo-lhe de leve a boca. Voltou pro balcão. Não a viu ir embora, não sabia se ela voltaria em outra noite. Não pensou em nada. Até reviver tudo de novo sozinho no quarto e gozou mais uma vez, só de pensar nela.


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Coluna Pela Noite a Dentro - Resposta

Resposta

Ele viu em seu rosto o receio, mas sabia que ela o amava. Ele percebeu seu tremor e a força com que segurava a bolsa em frente ao corpo, mas tinha certeza que ela cederia. Mesmo que negasse, ela não tinha forças para resistir a ele. Ela não tinha escapatória, cederia. E já há muito tempo esperava por isso. Esperava que ela decidisse, que ela permitisse. Fora a mais difícil das conquistas. Quanto tempo? Um ano e quanto? Nossa, muito mais tempo do que a última que era tão carente que em menos de dois meses deixara tudo em suas mãos.

Ela não. Ela era especial. Bonita, inteligente, sagaz, mas tinha cometido um erro, apaixonara-se por ele. Agora, apenas o golpe final. Tudo estava armado, mais uns minutos e ela entregaria, a chave do carro, as jóias, o dinheiro, o coração, a vida. Ela entregaria tudo que ele pedisse e ainda ofereceria mais. Ele estava louco, louco para entrar em ação de novo. Nunca demorara tanto numa conquista, mas esta era uma coroa diferente. Tinha tudo que ele gostava, inclusive beleza. Se cuidava, cheirava bem, se vestia bem. Tinha grana, muita grana. Carro do ano, jóias, muitas e valiosas, que agora estavam no cofre do hotel. Ele a tinha convencido de que precisava mostra-las naquela festa em especial. O bom é que agora ninguém acreditaria que ele a matara, conseguira convencer a todos que a amava, inclusive o imbecil do filho dela.

Acreditariam em assalto, afinal para todos os efeitos ele nem estava ali naquele momento. Tinha voltado ao Brasil, e, quando chegasse procurando por ela no hotel, a encontraria morta, vítima de um assaltante nas perigosas ruas centrais de Nova York. Tudo perfeito, o plano perfeito.

Em seguida, ouviram-se tiros.

Ele olhou a própria arma, assustado. Não tinha feito nenhum movimento ainda, como poderia? Sentiu alguma coisa quente escorrer pelo abdômen. Olhou para a mão dela na bolsa, percebeu que ela segurava algo diferente antes.

Caiu ainda meio confuso e pode ouvir

-          Eu nunca confiei em você

Depois, só escuridão.


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Coluna Pela Noite a Dentro - No compasso

No compasso

Deitou a cabeça cansada no peito musculoso dele. Apesar de todo o esgotamento e todo o gozo, sorriu preocupada. Não era muito dada a crenças absolutas em finais felizes ou contos de fadas, mas o relacionamento que começara como um negócio caminhava para um desfecho romântico. Era possível? Sua racionalidade dizia que não.

Invariavelmente mulheres como ela que tinham situação financeira estável, que tinham bens, que tinham... tinham... quase nunca conquistavam amor, quase nunca achavam sua alma gêmea e ela já tinha se acostumado a crueza da vida, de lhe roubar aquilo que ela mais gostaria de ter, para de uma hora para outra passar a crer firmemente nessa possibilidade.

Então quando cansara de querer dançar e não ter par, fora atrás de um, do único jeito que sabia fazer as coisas. Comprou um par para dançar. Quando o vira pela primeira vez fizera a avaliação: altura adequada, ombros, braços,  músculos não muito definidos. Não que fosse importante, ela não queria exibi-lo, queria exibir-se. Mas era também bonito e parecia bem tratado.

O acordo saíra na primeira aula que fizeram juntos, não parecia realmente uma coisa de outro mundo. Ela ia busca-lo, nos dias que tivessem festas que ela gostaria de ir, o levaria de volta e ele receberia diária, além de não pagar nada que quisesse consumir.

Até que ele começara a ligar, começara a convida-la para sair sem o compromisso da dança, sem o pagamento, sem... nada a além da companhia dela e da conversa. No começo, achou a atitude legal da parte dele, que fossem amigos além de pares de dança.

Um dia, muito mansamente ele começara a se impor, a elogiar, a desejar, a dizer coisas que a deixavam mexida, nervosa. Um beijo roubado, dentro do carro, e pronto, ela nunca mais seria a mesma até prova-lo por completo.

E nesse meio tempo dançar ganhara um novo significado, a fluidez dos passos, os bate-coxas sensuais, e o corpo dela completamente entregue aos floreios que ele fazia no salão. Fora num fim de dança que ele fizera a proposta e ela achou que nenhum passo de tango teria toda aquela dramaticidade, nervosismo ou sentido.

Foi a primeira vez que ficou nua na frente dele, e o olhar que recebeu em troca dessa coragem, foi completamente atordoante, o arrepio de aceitação de se sentir gostada... querida... gostosa...  a provocara ao extremo. O coração calculista perdera as batidas.

Ele nem era um homem, era ainda um garoto acostumado a sair com menininhas, acostumado a corpos jovens e ela já estava acima da idade da pele firme, embora se cuidasse.

A maneira delicada e carinhosa como alcançava os lugares no corpo dela, lhe tiravam o folego. A principio, um recuo, uma timidez quase como a primeira vez. Depois, a fome a consumiu e ao mesmo tempo era diferente quase romance, quase como uma relação intensa de gostar profundo embora nenhuma palavra sobre sentimentos tivesse sido dita.

Ele conseguira acordar a libido que a muito dormia. Um toque leve no pescoço, um beijo molhado na nuca, os corpos juntos na cama e o vigor da juventude que a enebriava, era quase vinho em seu sangue, uma mistura de calor e entorpecimento. Sentia a pele pulsar e se sentia viva. Era isso que agora a preocupava. Como uma droga, ele começara a se infiltrar, e não era para ser assim, era para ser um negócio.

Era pra conseguir livrar-se dele quando quisesse, mas via-se a ligar, via-se a inseri-lo em sua vida. Queria-o sem definir exatamente como conseguiria deixa-lo ficar. Respirou fundo, acariciou o peito sob o rosto, ouviu um suspiro.

- mais? – era uma mistura de rios e convite.

- como se eu aguentasse... – riso

- não aguenta, não? Vamos fazer um teste? – felicidade era isso, a disputa saudável de quem tinha, dava, queria mais prazer.

Adorou a mão que se arrastava devagar pelas coxas, subindo e marcando virilhas, barriga, cintura, e parando abaixo do seio nu. – acho que você quer mais – ele disse olhando para o bico do seio eriçado, desceu a cabeça pôs na boca a parte do corpo que pedia carinho, carícias.  Ela respirou fundo, agarrava cabelos, cabeça. Arranhava.

- assim o outro vai ficar com ciúmes – ela ainda conseguiu brincar, ele parou a olhou nos olhos, meio irritado, meio enciumado. Ciúmes era bom sinal, não?

- que outro? – a pergunta feroz a fez rir mais ainda

- o outro seio – respondeu rindo

Ele sorriu e parou com as carícias

- o que foi? – ficou tensa.

- não gosto disso, não gosto de saber que sou apenas o rapaz que você paga pra sair com você. Não sou assim... – ele bufou e sentou na cama.

Talvez fosse a hora de conversar sério, talvez os dois estivessem se torturando afinal.

- você sabe que não é assim... que pode ter começado, mas agora, as coisas estão diferentes.

- quão diferentes, me diz?

Ela estava sendo pressionada, era isso, finalmente alguém tinha coragem de questiona-la sobre seus sentimentos. O que fazer, fugir como sempre fizera ou ter coragem de assumir que também sentia alguma coisa por aquele menino mais de dez anos mais novo e que ainda buscava um lugar no mundo?

- eu gosto de você é isso que você quer ouvir?

- eu não gosto de você - ele disse de uma única vez, ela quase sufocou – eu sou louco, apaixonado, você... você... ele também perdeu a fala.

Ela sorriu – não vejo problema nisso, ela o abraçou e o trouxe para a cama, continuaram a demonstrar sentimentos da forma mais eficaz.

***

Ela levantou, sorriu, era certo, era errado, o que estava fazendo afinal de contas? Um telefone começou a tocar em algum lugar do quarto. Ele ainda dormia profundamente. Atendeu.

- Você ainda está com a velha? – uma vez de mulher estridente e mandona se fez ouvir do outro lado. Ela olhou o telefone, era o dele. Desligou na mesma hora era um aviso. Estava ciente.



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Coluna Pela Noite a Dentro - Obsessão

Obsessão

Abro os olhos. É tarde. André. “Tu já estais atrasada, não vais trabalhar?” André. Tomo banho, a saudade é tanta que passo lentamente o sabonete no corpo. André. “Não tem tempo prum café?”. “Não”. André. Parada. 521. André. 102. André. 305. Ônibus. André. “Tem trocado?”. Desço. Tem tanta coisa para fazer no escritório. André. “Bom dia”. André. Leio jornal. André. Calculo as contas. André. Telefone. André. Ordens. André. Almoço.André.

Mais trabalho.André. “Não, o senhor não vai poder falar com o médico agora”. André. Mais telefone. André. Música. Alguém canta desilusão. André. André. Alguém lembra de saudade. André. André. “O que tu tens? Pareces fora do mundo, estamos tentando manter uma conversa amigável aqui”. André. Distração. André.

Caminho de casa. André. Meio bêbada. “Tenho que parar com happy hours nos dias de semana”. Distração. André.André. “Cuidado com o carro”. E o último pensamento: André.

Obsessão II

Abro os olhos. É tarde.André. “Tu já estais atrasada, não vai trabalhar?” André. Tomo banho, a saudade é tanta que passo lentamente o sabonete no corpo. André. “Não tem tempo prum café?”. “Não”.André. Parada. 521. André. 102. André. 305. Ônibus. André. “Tem trocado?”. Desço. Tem tanta coisa para fazer no escritório. André. “Bom dia”. André. Leio jornal. André. Calculo as contas. André. Telefone. André. Ordens. André. Almoço.André.

Mais trabalho.André. “Não, o senhor não vai poder falar com o médico agora”. André. Mais telefone. André. Música. Alguém canta desilusão. André. André. Alguém lembra de saudade. André. André. “O que tu tens? Pareces fora do mundo, estamos tentando manter uma conversa amigável aqui”. André. Distração. André.

Volta para casa. André. Tomo banho, sabonete, saudade, André.

-          Alô? – a voz quase sumida, insegura.

-          Oi! Há quanto tempo? Muito ocupada? – voz alegre, infantil até, feliz, acho.

-          Não, só, dando um tempo de te encher – riso, brincadeira.

-          Ah! Puxa! Tive saudades. Faz mais isso não, ta. Liga mais  – conversa, alegria. Bons sonhos depois.

Obsessão III

Abro os olhos. É tarde.André. “Tu já estais atrasada, não vais trabalhar?” André. Tomo banho, a saudade é tanta que passo lentamente o sabonete no corpo. André. “Não tem tempo prum café?”. “Não”.André. Parada. 521. André. 102. André. 305. Ônibus. André. “Tem trocado?”. Desço. Tem tanta coisa para fazer no escritório. André. “Bom dia”. André. Leio jornal. André. Calculo as contas. André. Telefone. André. Ordens. André. Almoço. André.

Mais trabalho.André. “Não, o senhor não vai poder falar com o médico agora”. André. Mais telefone. André. Música. Alguém canta desilusão. André. André. Alguém lembra de saudade. André. André. “O que tu tens? Pareces fora do mundo, estamos tentando manter uma conversa amigável aqui”. André. Distração. André.

Meio bêbada entro em casa. “Tenho que acabar com essa história de happy hours em dias de semana”. Depressão. Saudade. Dor de estomago. “Dever ser do álcool”. “Tenho que ....Porra nenhuma!” “Tenho que acabar é com essa história duma vez”. Desilusão. André.

Banheiro. Sem roupa. Gilete. Filete de sangue da veia correndo pro chão. Mancha no ladrilho. Sangue. Vermelho vivo. Corpo nu caído no banheiro. “Tenho que acabar é com essa porra duma vez”. André é o último vertiginoso pensamento.

Obsessão IV

Abro os olhos. É tarde.André. “Tu já estais atrasada, não vai trabalhar?”.André. Tomo banho, a saudade é tanta que passo lentamente o sabonete no corpo. André. “Não tem tempo prum café?”. “Não”.André. Parada. 521. André. 102. André. 305. Ônibus. André. “Tem trocado?”. Desço. Tem tanta coisa para fazer no escritório. André. “Bom dia”. André. Leio jornal. André. Calculo as contas. André. Telefone. André. Ordens. André. Almoço.André.

Mais trabalho.André. “Não, o senhor não vai poder falar com o médico agora”. André. Mais telefone. André. Música. Alguém canta desilusão. André. André. Alguém lembra de saudade. André. André. “O que tu tens? Pareces fora do mundo, estamos tentando manter uma conversa amigável aqui”. André. Distração. André.

Noite, telefone toca

-          Alo? – voz cansada.

-          Pensou em mim? – voz alegre do outro lado da linha.

-          Você sabe que não. O dia hoje foi tão cheio, André. Você nem sabe o quanto – sorriso, alegria.

-          Puxa! Pensei em você o dia inteiro. Estou morrendo de saudades.

-          Eu também – isso era verdade.


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Coluna Pela Noite à Dentro - Vício

Vício

- Oi ?

Por um minuto não soube o que fazer. Responder? Sair correndo? Sumir? Ou
afundar-se no chão? As vontades invadiram sua mente covarde e seu corpo
traiçoeiro não reagiu de imediato a nenhuma idéia.

- Oi – resposta não trazia a surpresa esperada. Não demonstrava a
insegurança ou a alegria por encontrá-lo, ou melhor, por ser descoberta.

- Você está aí, há quanto tempo? – ele tinha todo o direito de perguntar.
Era seu bar favorito e ela sabia disso.

- Não é o que você está pensando! – sentiu-se na obrigação de defender-se
imediatamente.

- Então, o que é? – Não havia confiança na voz dele, apenas uma sobrancelha
levantada que indicava além do questionamento a clara certeza de estar sendo
contrariado.

- Cheguei com uns amigos e...

- Onde estão eles? – interrompeu

- Pára de me interrogar. Eu não vim atrás de você! – quase gritou, raiva,
frustração, orgulho. Cada sentimento brigando com mais força dentro dela
para se sobressair. – Não é o que você está pensando – a voz sem querer ia
ficando mais alta.  – Por que eu viria atrás de você? Não temos mais nada.
Só saí pra me divertir um pouco, ou o bar é exclusivo? Os pobres mortais não
podem pisar aqui?

- Onde estão os seus amigos? – o tom de voz deixando bem claro que ele não
ia entrar no mérito da questão sobre ela poder ou não estar naquele bar.

- Já estavam de saída. Eu vim ao banheiro – ela sabia que ele sentia a
mentira da última frase.

- O banheiro das mulheres é do outro lado – parecia querer provar que ela
estava fazendo o que dizia que não estava.

- Eu sei, respondeu rápido  - Agora, eu sei, se corrigiu, você nunca me
trouxe aqui, eu não conhecia o bar  - era uma acusação e uma constatação
juntas.

- você sabe o motivo – o que mais a irritava era o fato dela estar se
sentindo culpada e ele posando de correto no meio do bar.

- Sei? Ok. – levantou as mãos espalmadas  – não precisamos discutir isso,
nunca mais precisaremos discutir mais nada mesmo. Não tem mais importância.

- Não? – a maldita cínica e sarcástica sobrancelha levantada a inflamava de
raiva – Seus amigos não a estão esperando?  A maneira como ele falava também
a deixava furiosa, era quase um pai, pegando a filha em arte flagrante.

Quis ser indiferente  - Por isso mesmo não posso conversar agora – saiu
quase correndo em direção ao banheiro feminino. Queria chorar. Morrer. Que
idiotice tinha sido aquela para entrar e procurá-lo? O relacionamento tinha
acabado. Não tinha mais nada haver com ele. Embora uma vontade masoquista a
tivesse feito aceitar o convite dos colegas de trabalho para uma esticadinha
no fim de noite. Não esperava ir parar ali, mas já que estava lá, não
custava nada, tentar vê-lo. Só isso, olhar para ele. Morria de saudades.
Sabia de sua culpa e responsabilidade pelo fim do relacionamento. Mas o
coração doía tanto. Os olhos ficaram inundados. Tentou se conter. Precisava
sair inteira do banheiro, como se nada tivesse acontecido, entrar num taxi e
ir pra casa, garantira aos amigos que ficaria bem,  apenas queria dar sua
última espiadinha nele para poder dormir em paz. Se é que algum dia
conseguiria encontrar paz novamente.

- Seus amigos já foram – ouviu imediatamente ao sair do banheiro – Eu levo
você pra casa, as palavras ditas como se ele estivesse fazendo um extremo
sacrifício, não sei por que você insiste em sair com esse pessoal que te
deixa sozinha – e lá vinha o mesmo tom de recriminação que ele usara quase
sempre.

Nunca tinha aprovado os amigos dela. Nunca tinha aprovado os lugares aonde
ela ia. Principalmente se ele não estava junto. Mas ela era proibida de
freqüentar os lugares aonde ele ia.

- Não são lugares para moças, ele quase sempre repetia, como se ainda
vivessem na idade média.

- Já sou uma mulher. Posso ir aonde bem entender...

- Não vamos discutir isso de novo.  – não, não iam discutir isso de novo,
nunca mais discutiriam nada referente aos lugares que freqüentavam afinal
não tinham mais nada em comum, nem cobranças, nem afinidades.

- Claro que não, minha vida e os lugares que vou não são da sua conta. São?

- Não – seco, frio,

- Ótimo. Não preciso que você me leve para casa. Eu vim sozinha e vou voltar
sozinha.

- Não. Eu levo você. – insuportavelmente mandão, ela tinha esquecido como
odiava aquele tom autoritário. A raiva ia fluindo cada vez mais rápido pelo
sangue.

- Não acredito! Vai abandonar seus amigos para me levar em casa? Quanta
deferência... também sabia ser sarcástica

- Não comece. Não vou brigar. Eu vou levar você e pronto.

- Ah! Quantos anos você acha que eu tenho? Quinze?

- Eu sei exatamente quantos anos você tem. Mas já bebeu o suficiente.

Ela riu alto – sim, você não gosta que eu beba. Pois para o seu governo, eu
bebo o quanto eu quiser.

- Cala a boca. Você está fazendo escândalo – ela parecia realmente irritado,
o que a deixou ainda mais irada

- Escândalo? Você ainda num viu... – a mão grande e forte dele tapou a boca,
o braço a agarrou pela cintura. Ele carregou a mulher que se debatia pelo
bar e entrou com ela no primeiro táxi que viu.

- Você passou de todos os limites – ele a agarrou e beijou com toda a fúria
que tentava conter, depois ânsia, fome e saudades superaram a raiva e o
rancor – e antes que você fale qualquer coisa. Realmente não me interessa o
que você veio fazer aqui. Não me interessa com quem você veio. Muito menos o
quanto você bebeu... Eu tava louco de saudade.

Ela correspondeu ao beijo, jogou-se em seu peito – Eu não bebi – assumiu
ainda zonza.

- Percebi... – ele continuava com a língua próximo a boca dela

- Mas eu não vim... juro.. de verdade

- Já disse que não me interessa. Vamos para casa. Eu preciso de você

- Casa?

- Sim, a minha. De onde você nunca devia ter saído...

- mas...

- Não quer ir? Os olhos dele ficaram inseguros, quase angustiados

- Mas e sexta que vem?

Ele sorriu – Temos sete dias até a próxima briga. Quero te beijar bastante e
me lembrar de todos os motivos pelos quais eu fiquei feliz de você ter ido
embora.

- Feliz, é? Bateu nele de brincadeira

- Por dois minutos sim. O resto do tempo eu só queria você.

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